Prezado César Benjamin,
Li seu artigo na Folha e fiquei relutante. Não sabia se responderia ou não. Depois de maquinar muito sobre o assunto, resolvi entrar em contato para contar o que aconteceu. Entrei no MEP com 17 anos. Nunca fui preso. Principalmente com o Lula. Mas estive com ele em uma outra ocasião, em 1981, quando eu tinha 16 anos e meu pai era sindicalista, junto com ele.
Estávamos no Sindicato dos Metalúrgicos, em uma reunião entre os líderes, para discutir assuntos práticos relacionados à greve que seguiria. Eu estava aprendendo muita coisa com eles, apesar de não ter tido nenhuma experiência de prisão ou tortura no currículo, como muitos ali. Entre os confrontos durante manifestações que passei, nada seria tão glorioso quanto ser preso, mas isso não aconteceu.
O Lula me chamava de “menino”, dizia que estava vendo um grande homem crescendo em sua frente. Dizia que eu tinha garra, força e que o país precisaria dessa vitalidade muito em breve. Tinha muitos planos em mente, mas eu não sabia de quase nenhum. Ouvia apenas o que meu pai contava sobre tudo.
Na reunião, fomos interrompidos duas vezes por suspeitas de que poderíamos estar sendo vigiados de algum prédio vizinho. Na segunda interrupção, nos dispersamos por causa do plano de fuga, e eu fui esperar numa sala junto com o Lula, sozinhos. Com toda a minha admiração pelo homem, não imaginei que ele pudesse tomar qualquer iniciativa de algo contra mim, mas ele tomou. Me abraçou, começou a insinuar uns papos estranhos. Foi muito rápido, porque logo voltaríamos à reunião, ele veio para cima de mim e eu me protegi como pude, praticamente a cotoveladas.
Logo notamos que era mais um alarme falso, e voltamos à sala central onde estava acontecendo a reunião. Fiquei muito nervoso, cheguei a xingar o Lula. Meu pai resolveu me levar pra casa para não causar mais problemas por ali. Deste então me envolvi em poucos assuntos, meu pai ficou muito revoltado com aquela reação estúpida, começou a me impedir de estar em muitos lugares nesse período.
O militante do MEP que esteve preso com ele disse que não aconteceu nada. O publicitário que estava com você quando o Lula contou essa história disse que era obviamente uma piada, “brincadeira” do candidato a presidente. Eu não sei por que ele contou isso desse jeito, mas pode ter certeza: por mais piada que seja, toda brincadeira tem um fundo de verdade. Nesse caso, a brincadeira era só a época e a situação. Que tipo de candidato conta uma piada dessa a um marqueteiro que vai fazer a campanha dele?
Não vou levantar isso de novo agora. Só queria que você soubesse o que aconteceu, caso queira escrever sobre isso.
Um abraço,
