Presente, passado e futuro. Corporativamente falando.

5 04 2010

Eu não sei usar o Twitter. Não tenho tempo pra isso, tenho que trabalhar. Como eu dirijo uma empresa e ainda tenho tempo pra ficar lendo fofoca na internet? Não dá. E esse negócio de Facebook então? É fazenda pra cá, atualização de status pra lá… como se gente que tem mais o que fazer tivesse tempo pra essas coisas.

Meu filho que tem participado dessas coisas aí, vendo que fulano morreu, beltrano estava no terremoto no México, e blá, blá, blá. Pra que eu quero saber disso? Quero mais é saber que horas meus funcionários chegaram, quantos relatórios estavam no meu e-mail até meio-dia e qual a porcentagem da meta que batemos até agora. Muito mais importante que baboseirinha de adolescente na internet.

O pior de tudo isso é que eu tenho visto empresário falando disso aí, como se fosse a galinha dos ovos de ouro. Deixa essa gente preocupada com a internet que eu vou é aproveitar e vender muito, estourar de vender. Empresário grande, de multinacional, vê se pode? Entrando no twitter… que vergonha! Eu já mandei bloquear todos os acessos a esses sites de perda de tempo aqui na empresa. Não quero ninguém se distraindo. Quero foco total! Lembro da época do orkut, que todo mundo ficava vendo foto e bisbilhotando página dos outros. Isso aí deve ser tudo igual, pra ficar vigiando o povo.

Aliás, preciso ir porque o pessoal do marketing tem uma reunião comigo agora. Vamos fechar os anúncios de TV e rádio, pra vender bastante! Principalmente no horário do Fantástico. Adoro o Fantástico, deve estar com a audiência lá em cima! Quero só ver quando a concorrência vir minha estratégia. Vão babar de inveja com meus resultados.





To BBB or not to BBB?

19 03 2010

Sabe, eu sempre fui muito fã do Big Brother. Assisti todas as edições, eu e a Edilene, minha companheira aqui da casa do lado. Sempre tem um monte de mulher e homem bonito, e alguém mais humilde que a gente gosta de ver ganhar, porque representa o povo né… agora nas últimas eles não deixaram mais entrar sem a seleção que eles fazem. Voltou a ter só homem e mulher bonito. E rico. A gente não consegue saber agora quem precisa mais, tem que votar por quem merece mais ganhar.

Eu assisti o do ano passado e achei muito justo. Aquele moço bonito, não mentiu pra ninguém, namorou aquela outra, uma graça os dois! Muito legal. Esse ano até tentei assistir, mas tá bem complicado. No começo a gente até conseguiu olhar e tal, mas ficou muito confuso. Tem umas coisas que tem que entrar na internet pra participar, umas que não dá pra entender, até o que eles falam é complicado. Tem gay e sapatão, aí a gente acha que um casal tá quase dando certo, mas lembra que ele gosta é de homem! Que estranho. Não sei se tem alguém entendendo essas provas também. Tudo tem que entrar na internet e votar, o telefone só dá pra usar no paredão!

Sei que nem eu nem a Edilene estamos empolgadas não. Tem semana que a gente esquece da prova do líder, vê se pode. Minha sobrinha vive me dizendo que tá todo mundo falando do BBB, que tudo tem muitos comentários lá nas internets da vida dela. Eu só vi gente falando que não tá gostando da pouca vergonha desse ano.

Sei que pelo menos no começo já deu pra eliminar aqueles moços bonitos, que não mentiam pra ninguém e queriam ficar com as mocinhas gracinhas da casa. Esse tipinho não merece ganhar, é dos piores. Mas vamos vendo como tá indo né… ver se tem mais provas legais, como aquelas de tirar bolinha!! Essas de resistência a gente demora muito pra saber quem ganhou. Aí cansa. Aliás, quem será que vai pro paredão? Ah, já tá rolando? Ah, era paredão surpresa? Aí, viu como tá tudo confuso…





Palavra do Patrão

25 02 2010

Só lá no meu bairro teve um monte de enchente, desde dezembro. Na minha casa não entrou água, graças a Deus. Estamos ouvindo desde dezembro que tem chovido mais que o normal, acima da média, e bla, bla, bla. Mas aí chega num ponto que a gente acostuma com a quantidade de água da chuva. Então o nosso esperado sobe também. A gente só ouve a previsão do tempo pra tentar saber que hora mais ou menos é que vai chover, mas todo mundo já sai de casa esperando a chuva no fim do dia.

Demoramos um mês construindo um cidade inteira aqui no trabalho. Literalmente. Todo mundo avisou, “ooolha, vai choveeeer…” “não é melhor mudar esse pedaço aquiii?” Eu dei umas dez variações do projeto original, pra evitar que a água levasse tudo embora. Mas ninguém quis ouvir. Na verdade, o patrão não quis ouvir. Nada funciona se o patrão não autoriza, então fizemos do jeito que dava mesmo. A esperada chuva veio e levou tudo embora, como tínhamos avisado.

Das duas uma: ou o patrão não confiou na previsão do tempo ou confiou demais que o Lombardi ia dar um lero em São Pedro.

(Não entendeu?)





Raios, trovões e tempestades

4 02 2010

- Olha amor. Acho que não vai dar pra gente ir naquele jantar dos seus pais.
- Ué, por quê?
- Porque vai chover.
- Como você sabe se o jantar é só daqui uma semana?
- Olha bem. Tá chovendo todo dia na mesma hora há quase dois meses. Certamente vai chover no dia do jantar. Então não vai dar pra ir. Vamos ficar presos no trânsito, na enchente, essas coisas.
- Se você já sabe que vai chover, então a gente já se programa para sair mais cedo e irmos pelo caminho que não alaga. Não precisa cancelar.
- Precisa sim. Sua mãe também não vai chegar. Ela vai ficar presa no trânsito na volta do mercado com as compras, para fazer o jantar.
- Pode parar que eu sei que você tá inventando só pra não ir! Eu ligo pra minha mãe e aviso pra ela ir fazer as compras com antecedência, vai dar tudo certo.
- Mas você também não vai chegar. Você vai ficar presa no trabalho, porque a região que você trabalha fica toda alagada.
- Nossa, eu tinha me esquecido disso… é verdade…
- Pois é. Acho melhor você ligar pra sua mãe…
______________________________________________________
- Ainda bem que a gente não foi jantar na minha mãe. Olha essa chuva!
- Pois é. Aproveitando que a gente não ia, chamei os caras pra assistir o futebol aqui em casa.
- Como assim? Você planejou tudo isso seu sem-vergonha!?
- Pois é. Planejei, mas não deu certo. Chamei os caras pra vir aqui assistir o futebol. Mas acabei de olhar meu celular, e todos me mandaram mensagem dizendo que não vem.
- Ah, alguém pelo menos tem família, mulher, vergonha na cara…
- Não não. Ninguém conseguiu vir por causa da chuva.





Pressão alta

30 01 2010

Ele tinha que pensar em economia. Queria mesmo era pensar em futebol, mas depois de pensar em saúde, tinha que pensar em crise, investimentos, e etc. Quantas vezes ainda ele tinha que dormir mal, sorrir e acenar? Quantas vezes ia ler discursos sem emoção por puro cansaço?

Uma coisa ele tinha em mente. Teria a primeira oportunidade de descansar (finalmente!) no domingo. Alguns dias depois de entrar naquele avião. Um pulo lá, falava de economia, e um pulo cá, descansava. Mas, puxa vida. Domingo é dia de futebol. Não é dia de ficar dormindo pelos cantos. De jeito nenhum. Tinha que ter um jeito.

Sentou na poltrona pensando no Corinthians. Olhou pela janela e lembrou de Davos. Meu Deus! Pediu uma bebida. Um drink, básico, pra relaxar. Aí lembrou: domingo é o dia do clássico. Começou a sentir um mal-estar. “Vou perder o Timão em campo? Se meu vôo atrasa na volta, eu nem vejo o jogo!”. Uma tontura, um negócio estranho. A pressão subiu.

Pois é. Foi parar no hospital. No fim das contas, não teve que pensar em economia. Ganhou uns dias, pra poder fazer um churrasco no dia do clássico. Isso sim é vida!





Socorro na Enchente

22 01 2010

Tava um dia bonito. Levantei cedo pra ir no Mercadão, buscar o peixe que o Juninho gosta, pro jantar de aniversário dele. Sol forte, uma beleza. Saí de casa cedo, peguei a primeira condução era umas duas da tarde, cheguei no Mercado lá pelas três e meia. Acabei demorando pra escolher, sabe, tinha muita opção, muita gente… não tinha como não comer um pastel. Quando eu vi, já era cinco horas.

Saí de lá e o céu tava preto. Pensei que a chuva ia chegar mais tarde. Eu tinha um guarda-chuva da 25 na bolsa, e um bacalhau na sacola. A melhor idéia que eu tive foi de pegar um ônibus só em vez de dois, pra não ter que fazer baldeação. Pra isso, eu tinha que pegar o Socorro.

Antes de cair o mundo na minha cabeça, consegui chegar no ponto e perceber o quanto estava lotado. Aí sim caiu o mundo na minha cabeça. Eu não sabia se protegia a bolsa ou o bacalhau. Nisso passou um ônibus marrom. Não deu tempo de ver o letreiro, ele já tava saindo quando eu consegui entrar e ficar espremida na porta, de tão lotado. Quando a porta fechou, o ônibus saiu e logo parou no trânsito, bem ali na frente.

Aquela chuva desgraçada, a água subindo e eu precisando saber se era aquele meu ônibus. Perguntei pra moça que tava na minha frente: “esse aqui é o Socorro?”. Ela não respondeu. Demorei pra reparar que ela tava de fone no ouvido, aí tentei de novo, perguntando alto pra ver se alguém me ouvia. “Esse aqui é o…” Não deu pra terminar. Tava no meio da frase, a água pegou meu pé. Tinha água dentro do ônibus.

“Socorro!” gritei, chamando a atenção e terminando a frase. A única coisa que me responderam foi “é sim, minha senhora”. Oxe, ninguém tava vendo a água subir? A mocinha do fone de mexeu e no movimento dela o bacalhau foi parar bem na frente do meu rosto, quase me sufocando. Eu gritava “a água! Socorro!” E todos me diziam “é, não da pra ver, mas é Socorro sim”

Meu Jesus, o que eu fazia? E meu bacalhau? A água subindo, eu gritando e precisou chegar água no pé da moça do fone pra todo mundo notar que tava alagando tudo. Daí a coisa agilizou. O cobrador já abriu a saída no teto, um outro ja abriu a da parte de trás, todo mundo se espremeu pra sair do caminho da água, mas não precisou. O trânsito andou e logo o ônibus saiu daquela rua e foi pra uma mais alta, esperar a água baixar pra seguir viagem.

Daí ficou todo mundo olhando pra mim. Como se eu fosse uma doida varrida. Eu tava nem aí. A primeira oportunidade que eu tive, virei pro motorista e perguntei: “Esse aqui é o Socorro, num é?”





Haiti – Caído, antes de balançar

20 01 2010

Eu não teria feito diferente. Cheguei até aqui com garra, lutei por isso. Sei que não estou numa situação confortável pra dizer isso, mas me orgulho das minhas escolhas. Sinto falta de meus pais… será que irei vê-los novamente, depois de tanta saudade? Minha mãe tinha muito orgulho de mim, dizia que um filho médico sempre foi o sonho dela.  Quando eu decidi viajar, ela ficou preocupada. “Você vai salvar vidas sem saber se poderá salvar a sua”, ela dizia.

Pois é.  Um país em uma guerra muda aos olhos do mundo, uma missão difícil para os militares. Meu trabalho não era intenso, mas tratei muito de feridos a bala e atingidos por objetos como pedras e paus. A situação era muito pior quando cheguei, depois foi ficando mais amena. Era possível ver crianças brincando mais felizes, famílias crescendo. Mas ainda tinha muito trabalho a fazer. Ainda tem, na verdade.

É triste. Sei que chorar não adianta. Queria dizer para meus irmãos… a dor está me sufocando, falta ar, um pouco de água… queria ter feito mais por esse país… não posso mais respirar… deixo tudo melhor do que encontrei, ao menos… mãe, já estou indo… Deus, cuide dessas crianças!








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