Ansiedade

19 03 2012

Se tem uma coisa que não dá pra medir é ansiedade. Aliás, darem um nome pra ela já é um troço injusto, porque na aplicação da palavra parece que é um sentimento por algo que vai acontecer. Mentira.

Ansiedade não tem tempo, motivo, ou prazo final. Vem sabe-se lá de onde e faz as atitudes perderem o sentido de uma hora pra outra. Anula tudo o que é racional e, quase sempre, resulta em decisões impensadas. Mas que porcaria, por que a felicidade enquanto faço algo que nem sei se devia? Ansiedade, meu filho. Ela só precisa dessa dúvida pra existir.

Pro espaço com as definições da psicologia ou da psiquiatria. Só quem vive em companhia das borboletas na barriga sabe de verdade o que é viver na corda bamba. Transformar o certo em incerto e tratar cada dia como um mundo novo de descobertas, fazer e refazer planos, ter um futuro por dia. Abraçar o mundo com as pernas, diria minha mãe. 

A ansiedade, afinal, parece um sentimento insaciável. Só sabe o que é quem nunca está satisfeito em só viver.





… and the city.

2 02 2012

Gosto de curtir a cidade. Mas a cidade gosta ainda mais de curtir comigo. Tudo bem, você deve achar que é só aquilo de pegar todos os faróis vermelhos quando tô com pressa, entrar numa rua sem saída à pé na chuva, perder a aliança num bueiro no meio da rua.

Mas até aí, seria só uma leve ironia de Murphy, nada além do que todo mundo passa de vez em quando. Inferno astral, outros diriam. Mas não comigo, aqui é pessoal.

Encontro marcado num restaurante lindo, símbolo da cidade. De cara com a porta, “fechado para reforma”. OK, substituído por um lanche seguido de passeio por aquela praça famosa, cheia dos pontos turísticos. Iluminação pifa bem na hora que chego. Vamos pra casa então, tomar um bom vinho. Claro, se não tivesse acontecido um crime no prédio e tudo tivesse que ser evacuado.

Cansei, sabe. Deve ter algum lugar melhor que esse. Sei lá, o litoral, Xangri-lá, a Pasárgada. Talvez pra mim até na Pasárgada a amizade do Rei me trouxesse problemas. Acho que o problema não é a cidade. Sou eu.





Praga de mãe

10 08 2011

O Carlão não gostava de seriado, novela, nada dessas coisas que prendem a gente na frente da televisão esperando pelo próximo capítulo. E falava pra todo mundo:

- Novela é pra mulher, que tem paciência.

Todo mundo sempre achou que no fundo era raiva de alguma ex-caso noveleira, que tinha feito o Carlão odiar mulher e novela. A mãe dele, que não sabia de caso nenhum, vivia dizendo que ele ia casar com uma noveleira, só porque o destino é irônico mesmo. A ironia não tardou a dar o ar da graça.

Viu o primeiro capítulo colado na tela. A mãe ria. O Carlão fazia bico.

- Tô de férias e não tenho nada melhor pra fazer.

Aí vieram o segundo, o terceiro, e as férias acabavam. A mãe continuava a rir. Ao fim das férias o Carlão chegava e colava na tela de novo.

- Começo das aulas, não tenho nada melhor pra fazer.

Os meses passavam e nada do Carlão perder um capítulo da novela. Encaixava os horários de estudos, saía com os amigos e se organizava para sempre estar na frente da tevê no horário marcado. Mas quando comentavam na mesa do jantar que ele estava vendo novela, ele grunhia algo parecido com só-de-vez-em-quando entre dentes e emburrava o resto da noite. Demorou quase três meses pra parar de grunhir quando lhe apontavam o dedo e chamavam de noveleiro.

- Não assisto sempre, só quando não tenho nada melhor pra fazer.

Foi viajar e ficar uma semana sem tevê. Nem parecia noveleiro, curtiu todos os momentos com a família e voltou na maior ansiedade pra ver na internet os capítulos que tinha perdido. “Viciou, é?”, riu-se a mãe, indo arrumar o quarto do menino cheio da bagunça de roupas da viagem. Nesse vai e vem, esbarrou no Carlão e o computador foi direto pro chão. Sem reação, o Carlão só conseguia grunhir:

- Tem que ficar zanzando por aqui enquanto eu vejo a novela? Não tem nada melhor pra fazer, não?

A mãe, tirando o sorriso do rosto, sussurrou: “noveleiro”. E deixou o quarto.

Com o fim da novela, o Carlão queria que chegasse ao fim também a alcunha. No meio do caminho conheceu a Márcia, noveleira de carteirinha.

A mãe conheceu a menina, e não escondia o sorriso no canto da boca. O Carlão só torcia pra ela não desejar netos tão cedo.





Imaginar, custa?

10 08 2011

Se imaginar pagasse imposto, ela trabalharia só pra isso.

Nem sabe quantas vezes se perdeu no que fazia porque viu um e imaginou. Criando histórias, cenas, absurdas, possíveis, aqui e ali. Muitas vezes nem sabia por onde se começa o que imaginou. Sorria como se um dia pudesse ser verdade, enrubescia sabendo que, na verdade, nem queria aquilo que imaginou. Mas já tinha imaginado. Outra vez. Traia a lógica ao pensar no que não faz sentido e traia a si mesma ao tentar esquecer algo de que tinha gostado, afinal, de imaginar.

Mas, olha, nem a imaginação dela seria capaz de tanto. Era só um sussurro. No final, já foi.

Foi pra longe, que nem a imaginação dela. Porque, enfim, imaginar não paga imposto.





Sua graça, São Paulo

22 09 2010

Daí que a Luisinha tem bronquite, asma, rinite, sinusite, alergias e espasmos. Daí que a Luisinha mora em São Paulo.

No convívio dela com a cidade, ela tá sempre em crise. Da asma, da bronquite e da sinusite, quando não são os espasmos. Vive de injeção e inalação. Respira com dificuldade. Mas gosta daqui, fazer o quê. Acostumou.

Quando chove muito, a Luisinha se sente meio mal, por causa do excesso de umidade no ar e das bactérias. Quanto chove pouco, a Luisinha se sente muito mal, por causa da poluição e do ressecamento do nariz. E daí? Cada vez que ela sai de casa, a mãe dela fala pra ela se cuidar, não voltar tarde, que ainda deixa São Paulo pra uma vida melhor, e etc etc etc. Ela só pensa “se eu morasse no interior, estaria indo pra praça. Com sorte, pro coreto. COMER CACHORRO QUENTE”

Tem gente que gosta dessa caos, não tem jeito. E segue tossindo, espirrando, fungando e tendo espasmos. A lógica da vida na cidade de longe não é a saúde. Nem o conforto. Nem tem lógica.

Daí que é isso aí.





Josés, Brunos e outros nada poéticos

15 07 2010

E agora?
Ele já foi preso, todos condenados, tudo como planejado. Agora eu não posso aparecer, tenho que mudar de nome, sair do país e esperar, pra tomar conta de tudo o que meu filho ganhar. Incrível, todo mundo caiu, ele tinha um plano mesmo, e nem sabe que não deu certo…
Criança é fogo, foi tudo como planejado e ele já deu com a língua nos dentes, nem sabe o quanto me facilitou a vida. Agora não posso esquecer da parte do Bola. Entrando na França já ligo pro meu pai, ele tá cuidando de tudo por lá, e tem que falar com todo mundo lá pra já ir atrás do que é nosso. O Bola fez o menino pensar exatamente o que esperávamos. Agora, fazer o quê, o Bruno queria tanto me matar… eu disse pra ele que era mais esperta do que ele imaginava. Por essa eles não esperavam, com certeza.
O quê? Bon jour, je sui Eli… pardon, Michelle. Merci.
Agora é haja Paris pra tanta Eliza.





Sobre Polvos, Estrelas e outros monstros marinhos

6 07 2010

Ninguém pode saber, viu? Eu te conto, mas você guarda segredo.

Tem um negócio que a gente usa pra reprodução de polvos, umas gotinhas que a gente pinga, e eles sentem o cheiro e ficam mais felizes, sabe. Eu nunca ia assumir nada, mas além da comida dentro da caixa, eu coloco umas gotas disso aí. Batata: o Paul sempre vai no que tem o estimulante. É, eu sei, é desleal com a galera que vem aqui ver as “profecias” dele, mas fazer o quê? Chegou uma época que o bicho cansou de escolher uma, foi tenso, ele parava no meio e ficava ali, em dúvida, como se a cabeça grande dele fosse rachar a qualquer momento. Aí eu resolvi dar só uma mãozinha, e não tive mais como voltar atrás…

O dono do aquário não sabe, não, ele também confia nas “profecias”. Pelo jeito, o profeta aqui sou eu, isso sim. Tenho acertado tudo na hora de pingar o produto junto com a comida. Mas queria ver, se fosse eu mesmo o profeta se eu estaria famoso que nem o Paul. Se eu errasse, então! Pois então, por isso. Deixa o polvo ficar feliz. Digo, o povo.

Entenda a história do polvo.





Presente, passado e futuro. Corporativamente falando.

5 04 2010

Eu não sei usar o Twitter. Não tenho tempo pra isso, tenho que trabalhar. Como eu dirijo uma empresa e ainda tenho tempo pra ficar lendo fofoca na internet? Não dá. E esse negócio de Facebook então? É fazenda pra cá, atualização de status pra lá… como se gente que tem mais o que fazer tivesse tempo pra essas coisas.

Meu filho que tem participado dessas coisas aí, vendo que fulano morreu, beltrano estava no terremoto no México, e blá, blá, blá. Pra que eu quero saber disso? Quero mais é saber que horas meus funcionários chegaram, quantos relatórios estavam no meu e-mail até meio-dia e qual a porcentagem da meta que batemos até agora. Muito mais importante que baboseirinha de adolescente na internet.

O pior de tudo isso é que eu tenho visto empresário falando disso aí, como se fosse a galinha dos ovos de ouro. Deixa essa gente preocupada com a internet que eu vou é aproveitar e vender muito, estourar de vender. Empresário grande, de multinacional, vê se pode? Entrando no twitter… que vergonha! Eu já mandei bloquear todos os acessos a esses sites de perda de tempo aqui na empresa. Não quero ninguém se distraindo. Quero foco total! Lembro da época do orkut, que todo mundo ficava vendo foto e bisbilhotando página dos outros. Isso aí deve ser tudo igual, pra ficar vigiando o povo.

Aliás, preciso ir porque o pessoal do marketing tem uma reunião comigo agora. Vamos fechar os anúncios de TV e rádio, pra vender bastante! Principalmente no horário do Fantástico. Adoro o Fantástico, deve estar com a audiência lá em cima! Quero só ver quando a concorrência vir minha estratégia. Vão babar de inveja com meus resultados.





To BBB or not to BBB?

19 03 2010

Sabe, eu sempre fui muito fã do Big Brother. Assisti todas as edições, eu e a Edilene, minha companheira aqui da casa do lado. Sempre tem um monte de mulher e homem bonito, e alguém mais humilde que a gente gosta de ver ganhar, porque representa o povo né… agora nas últimas eles não deixaram mais entrar sem a seleção que eles fazem. Voltou a ter só homem e mulher bonito. E rico. A gente não consegue saber agora quem precisa mais, tem que votar por quem merece mais ganhar.

Eu assisti o do ano passado e achei muito justo. Aquele moço bonito, não mentiu pra ninguém, namorou aquela outra, uma graça os dois! Muito legal. Esse ano até tentei assistir, mas tá bem complicado. No começo a gente até conseguiu olhar e tal, mas ficou muito confuso. Tem umas coisas que tem que entrar na internet pra participar, umas que não dá pra entender, até o que eles falam é complicado. Tem gay e sapatão, aí a gente acha que um casal tá quase dando certo, mas lembra que ele gosta é de homem! Que estranho. Não sei se tem alguém entendendo essas provas também. Tudo tem que entrar na internet e votar, o telefone só dá pra usar no paredão!

Sei que nem eu nem a Edilene estamos empolgadas não. Tem semana que a gente esquece da prova do líder, vê se pode. Minha sobrinha vive me dizendo que tá todo mundo falando do BBB, que tudo tem muitos comentários lá nas internets da vida dela. Eu só vi gente falando que não tá gostando da pouca vergonha desse ano.

Sei que pelo menos no começo já deu pra eliminar aqueles moços bonitos, que não mentiam pra ninguém e queriam ficar com as mocinhas gracinhas da casa. Esse tipinho não merece ganhar, é dos piores. Mas vamos vendo como tá indo né… ver se tem mais provas legais, como aquelas de tirar bolinha!! Essas de resistência a gente demora muito pra saber quem ganhou. Aí cansa. Aliás, quem será que vai pro paredão? Ah, já tá rolando? Ah, era paredão surpresa? Aí, viu como tá tudo confuso…





Palavra do Patrão

25 02 2010

Só lá no meu bairro teve um monte de enchente, desde dezembro. Na minha casa não entrou água, graças a Deus. Estamos ouvindo desde dezembro que tem chovido mais que o normal, acima da média, e bla, bla, bla. Mas aí chega num ponto que a gente acostuma com a quantidade de água da chuva. Então o nosso esperado sobe também. A gente só ouve a previsão do tempo pra tentar saber que hora mais ou menos é que vai chover, mas todo mundo já sai de casa esperando a chuva no fim do dia.

Demoramos um mês construindo um cidade inteira aqui no trabalho. Literalmente. Todo mundo avisou, “ooolha, vai choveeeer…” “não é melhor mudar esse pedaço aquiii?” Eu dei umas dez variações do projeto original, pra evitar que a água levasse tudo embora. Mas ninguém quis ouvir. Na verdade, o patrão não quis ouvir. Nada funciona se o patrão não autoriza, então fizemos do jeito que dava mesmo. A esperada chuva veio e levou tudo embora, como tínhamos avisado.

Das duas uma: ou o patrão não confiou na previsão do tempo ou confiou demais que o Lombardi ia dar um lero em São Pedro.

(Não entendeu?)








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