O Carlão não gostava de seriado, novela, nada dessas coisas que prendem a gente na frente da televisão esperando pelo próximo capítulo. E falava pra todo mundo:
- Novela é pra mulher, que tem paciência.
Todo mundo sempre achou que no fundo era raiva de alguma ex-caso noveleira, que tinha feito o Carlão odiar mulher e novela. A mãe dele, que não sabia de caso nenhum, vivia dizendo que ele ia casar com uma noveleira, só porque o destino é irônico mesmo. A ironia não tardou a dar o ar da graça.
Viu o primeiro capítulo colado na tela. A mãe ria. O Carlão fazia bico.
- Tô de férias e não tenho nada melhor pra fazer.
Aí vieram o segundo, o terceiro, e as férias acabavam. A mãe continuava a rir. Ao fim das férias o Carlão chegava e colava na tela de novo.
- Começo das aulas, não tenho nada melhor pra fazer.
Os meses passavam e nada do Carlão perder um capítulo da novela. Encaixava os horários de estudos, saía com os amigos e se organizava para sempre estar na frente da tevê no horário marcado. Mas quando comentavam na mesa do jantar que ele estava vendo novela, ele grunhia algo parecido com só-de-vez-em-quando entre dentes e emburrava o resto da noite. Demorou quase três meses pra parar de grunhir quando lhe apontavam o dedo e chamavam de noveleiro.
- Não assisto sempre, só quando não tenho nada melhor pra fazer.
Foi viajar e ficar uma semana sem tevê. Nem parecia noveleiro, curtiu todos os momentos com a família e voltou na maior ansiedade pra ver na internet os capítulos que tinha perdido. “Viciou, é?”, riu-se a mãe, indo arrumar o quarto do menino cheio da bagunça de roupas da viagem. Nesse vai e vem, esbarrou no Carlão e o computador foi direto pro chão. Sem reação, o Carlão só conseguia grunhir:
- Tem que ficar zanzando por aqui enquanto eu vejo a novela? Não tem nada melhor pra fazer, não?
A mãe, tirando o sorriso do rosto, sussurrou: “noveleiro”. E deixou o quarto.
Com o fim da novela, o Carlão queria que chegasse ao fim também a alcunha. No meio do caminho conheceu a Márcia, noveleira de carteirinha.
A mãe conheceu a menina, e não escondia o sorriso no canto da boca. O Carlão só torcia pra ela não desejar netos tão cedo.
